Tenho esse vício que me incomoda a vida. Escrevo e o café me acompanha, porque já faz parte disso que me interrompe. E sempre escuto: mais café? Tudo que é demais não é bom. E penso: tudo que é demais pede um pouco mais, então não é tanto, mas já é muito. E incomoda. Irritação que vem junto com o ponto de interrogação que fica preso na garganta. E escrevo pra amenizar o sufoco. Sufoco esse de tudo que indago. E como me indago. Tanto, e tanto que parece demais, mas nunca o suficiente, sobre tudo, muito sobre mim. E assusta. Mas nunca paro.
E outra coisa que me entorpece a vida são os sonhos simples. Sonhos disfarçados de grandes sonhos. E pessoas que se satisfazem com essa vida apagada, com uma rotina que regular. Rotina que, às vezes, arranja algo de um falso extraordinário que satisfaz. E, disso tudo, o que realmente me sufoca é a indagação desses sonhos na minha vida. Indagam para mim e insistem que são grandes. Não são. Nunca convenceram nenhuma parte de mim, nem meu lado menos esperto. Lado esse que toma conta de mim quando me vejo, com um pouco de atraso, envolvida com outra alma. Alma que engana também, que se faz necessária mesmo no ínfimo que me dá, que se entrega.
Não pense que são só indagações que me pertubam a vida. Vejo me pertubada com faíscas de amor. Sinto que me emociono demais, que ansio demais. Mas nunca é demais. Percebo nos olhos obliquos do felino, que me acompanha junto ao café, o mesmo olhar que me pertuba ao olhar o céu da noite. Essa vigia constante de, regularmente, checar se está estrelado. Porque as estrelas tremulam dentro de mim e me atraem as indagações. E no olhar distante, no amarelo-esverdeado - e não o contrário -, nos segundos que se seguem até a próxima borboleta tirá-lo de seus devaneios, ou a próxima pulga pertubá-lo. Assim como me distraem os espirros e o café frio.
Necessito tanto de mim e esse eu pede tanto por música, por acordes e cordas. E assim me distraio nas cores neutras dos sons que me arrepiam a pele. Tenho pele e me incomoda o frio que assola a sola dos meus pés. E as pontas dos dedos que sentem as palavras se formando e dando forma aos fantasmas, ao escuro da noite e ao vapor quente que escapa sorrateiro da xícara de café. E o silêncio que é interrompido. Interrompe-se com o estalar da melodia nos ouvidos e que vai ressoando e ecoando por dentro. E ecoa até o fim que não tem fim. Nem começo.
O resfriado que vem com o inverno também me perturba, mas incomoda mais o coração. Porque vem com o frio que trás lembranças. E, então, além de me incomodar só com o frio das mãos e dos pés e do nariz, nariz vermelho e irritado que vai incomodando a mente, me entristece o corpo. E a tristeza do corpo não é fácil de ignorar porque é a falta. Falta de quê? De algo. De um pedaço que nunca te pertenceu, mas esteve ali. E mesmo esquecendo e jogando para o fundo do ser - que pode ser o raso do meu ser -, o corpo lembra. Às mãos, os braços que abraçaram, até os lábios sussurram a vida que me faz falta. E eu nem consigo preencher essa falta com os sons da música boa que me alegra porque o som ressoa inevitável dentro de mim. E é a única música que não pode ser interrompida. Só com morte. Mas mesmo depois do fim, aposto que ainda continua tocando, fracamente, em outros interiores, em outras profundidades rasas.
Mas nada me revela mais que palavras e os tons em que são ditas. E me revolta as expressões que contradizem. Eventualmente me esqueço porque me distraio. E me anima a distração que deixa a vida mais interessante. Uma capa bonita que revela com fatos escritos o que se passava naquele momento em que foram redigidos. E pequenas canções que se prenderam em meus cabelos, simples pedaços de rimas que vão caindo da roupa. Pedaços que aterrissam no chão coberto de folhas e distraidamente se escondem nos cantos, correm com o soprar do vento. Pedaços que não serão mais achados, serão esquecidos e varridos com o tempo.
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